
O FAST e o E-FAST são protocolos de ultrassom à beira do leito usados no atendimento ao paciente traumatizado. O FAST procura líquido livre no abdome e no pericárdio. O E-FAST acrescenta a avaliação do tórax, em busca de pneumotórax e hemotórax. São exames rápidos, repetíveis, sem radiação, feitos pelo próprio médico que está conduzindo o caso, e por isso entram no raciocínio clínico no momento em que a decisão precisa ser tomada.
Este texto é voltado para médicos e estudantes que atuam ou vão atuar em urgência e emergência. Ele resume o que cada janela avalia, como interpretar os achados principais e onde o método tem limites.
O que é o FAST
FAST é a sigla em inglês de Focused Assessment with Sonography for Trauma, a avaliação focada com ultrassom no trauma. A pergunta que ele responde é objetiva: existe líquido livre onde não deveria existir? No contexto do trauma, líquido livre no abdome costuma corresponder a sangue, e líquido no saco pericárdico pode indicar derrame com risco de tamponamento.
O exame faz parte da avaliação inicial do politraumatizado como complemento ao exame físico, e não como substituto dele. O valor do FAST está em ser feito ali, sem tirar o paciente da sala, e em poder ser repetido sempre que o quadro mudar.
As quatro janelas do FAST
Quadrante superior direito
É a janela hepatorrenal, que mostra o espaço entre o fígado e o rim direito, conhecido como espaço de Morison. Por ser uma região de declive com o paciente deitado, é um dos primeiros locais onde o líquido livre se acumula. Vale avaliar também o polo inferior do fígado e o recesso acima do diafragma.
Quadrante superior esquerdo
Mostra o baço, o rim esquerdo e o espaço entre eles. A janela costuma ser mais alta e mais posterior do que se imagina, e o líquido tende a aparecer primeiro ao redor do baço e abaixo do diafragma. Ajustar o transdutor entre os espaços intercostais ajuda a fugir da sombra das costelas.
Pelve
Com o transdutor acima do púbis, nos planos transversal e longitudinal, avalia-se o líquido ao redor da bexiga e na região retrovesical ou retrouterina. A bexiga com conteúdo funciona como janela acústica, por isso o ideal é examinar a pelve antes de passar sonda vesical, quando isso for possível.
Subxifoide
Avalia o pericárdio. O objetivo é identificar derrame pericárdico e sinais que levantem suspeita de tamponamento no contexto clínico. Quando a janela subxifoide não é boa, a paraesternal pode ser uma alternativa.
O que o E-FAST acrescenta
O E-FAST, ou FAST estendido, inclui o tórax. Com o transdutor na parede anterior do tórax, de cada lado, procura-se o deslizamento pleural, o movimento da pleura visceral sobre a parietal a cada respiração. A presença do deslizamento no ponto examinado torna pouco provável um pneumotórax naquele local. A ausência dele levanta a suspeita, que fica mais forte quando se encontra o ponto de transição entre a área com e a área sem deslizamento.
Nas janelas laterais, acima do diafragma, avalia-se o recesso costofrênico em busca de líquido, o que pode corresponder a hemotórax no trauma.
O E-FAST aproxima a avaliação do tórax do leito do paciente. Ainda assim, cada achado precisa ser lido junto com o exame físico, os sinais vitais e o mecanismo do trauma.
Como interpretar: positivo, negativo e indeterminado
Um FAST positivo, com líquido livre em um paciente instável, ajuda a direcionar a conduta para a origem do sangramento e a acelerar a decisão junto à equipe cirúrgica. Em um paciente estável, o achado orienta a investigação complementar.
Um FAST negativo não encerra a investigação. Ele diz que, naquele momento e naquelas janelas, não se viu líquido livre. O sangramento pode ainda não ter se acumulado em quantidade visível, e por isso a repetição do exame com a evolução do quadro é parte do método.
Um exame indeterminado, por janela ruim ou dificuldade técnica, deve ser registrado como tal. Isso é melhor do que forçar uma conclusão.
Os limites do método
Conhecer os limites é tão importante quanto saber fazer o exame:
- o FAST não avalia bem o retroperitônio;
- lesões de vísceras ocas e do diafragma podem não gerar líquido visível no início;
- obesidade, enfisema subcutâneo e curativos dificultam as janelas;
- líquido pélvico em pequena quantidade pode ser fisiológico em algumas mulheres em idade fértil;
- o resultado depende de quem faz o exame. Técnica, ajuste do aparelho e leitura da imagem se aprendem com prática.
É justamente esse último ponto que separa quem leu sobre o FAST de quem consegue usá-lo com segurança no plantão.
Por que a prática supervisionada faz diferença
O FAST é simples de descrever e exigente de executar. A janela do quadrante superior esquerdo, o ajuste de profundidade e ganho, a diferença entre líquido livre e estruturas normais, como vesícula, alças com conteúdo ou gordura perirrenal, são detalhes que só ficam claros com o transdutor na mão e alguém experiente ao lado.
Foi com esse objetivo que o Dr. Victor Scalzer, médico radiologista com formação pelo Instituto do Câncer, em São Paulo, criou o Treinamento Intensivo FAST e E-FAST na Emergência, em Araguaína. São dois dias de imersão teórico-prática, com prática individual no equipamento e foco na aplicação real dos protocolos no cenário da urgência. Você pode ler como foram as primeiras turmas em Treinamento FAST e E-FAST em Araguaína.
O ultrassom à beira do leito, também chamado de POCUS, funciona como uma extensão do exame físico. Quando é bem conduzido, ele deixa de ser um exame isolado e passa a fazer parte do raciocínio clínico. Para entender como o mesmo raciocínio aparece em outros exames do dia a dia, veja também a página de ultrassonografia geral.
Se você atua na emergência e quer participar da próxima turma, as informações sobre datas e vagas estão disponíveis pelo WhatsApp do treinamento.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre FAST e E-FAST?
O FAST avalia quatro janelas, três abdominais e uma pericárdica, em busca de líquido livre. O E-FAST acrescenta a avaliação do tórax, com as janelas anteriores para pneumotórax e as laterais para hemotórax.
Um FAST negativo descarta lesão abdominal?
Não. Ele indica que não se viu líquido livre naquele momento. O exame deve ser repetido se o quadro mudar, e a investigação continua de acordo com a avaliação clínica.
Quem pode fazer o FAST?
O FAST foi pensado para ser feito pelo médico que conduz o atendimento, à beira do leito. Para isso, é preciso treinamento prático, porque a qualidade do exame depende da técnica de quem o realiza.
É possível aprender FAST sem experiência prévia com ultrassom?
Sim. Na primeira turma do treinamento em Araguaína, participantes que nunca tinham usado o ultrassom saíram realizando o exame com segurança. A prática individual no equipamento, com supervisão, é o que torna isso possível.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação do seu médico. Quem interpreta cada caso é o profissional que acompanha você.



